sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Ainda o silêncio


Quase 50 anos após o golpe, o tema continua sendo encarado com ressalvas em sala de aula

Mateus Henrique de Faria Pereira


O golpe de 1964 e a ditadura militar (1964-1985) ainda aparecem pouco em sala de aula. A atuação recente da Comissão da Verdade é uma boa oportunidade para que esse passado que ainda não passou seja incorporado com mais intensidade ao ensino de História. A atualidade do tema se impõe, mas há também uma necessidade política. Alguns estudos sugerem que, em comparação com jovens argentinos e uruguaios, os brasileiros são os que menos têm interesse sobre o passado militar e os que têm menores rejeições a “opções militaristas”. Eles também são os mais despolitizados e os que menos defendem valores democráticos. Os dados servem de alerta.
De 1964 até os dias de hoje, a historiografia e o ensino mudaram em vários aspectos, assim como os olhares sobre o golpe. As várias explicações nos livros didáticos – às vezes de um mesmo autor em obras diferentes – mostram que, na escrita histórica do tempo presente, muitas vezes há certa autonomia dos autores em relação à produção historiográfica. Por isso, uma forma interessante de trabalhar com os livros didáticos de História é entendê-los como intérpretes doadores de sentidos ao “acontecimento traumático” golpe de 1964.
Em uma ampla análise de quase 80 livros didáticos produzidos entre 1973 e 2000, nota-se que as abordagens adotadas muitas vezes se concentram nas figuras de Jânio Quadros e João Goulart, individualizando e psicologizando o acontecimento, que é visto como fruto apenas das contingências imediatas. Percebe-se boa dose de determinismo e a predominância do tempo curto sobre todas as outras possibilidades de explicação. O golpe a ser dado era inevitável e seria bem-sucedido. Possibilidades disponíveis, mas perdidas, são ignoradas, como se outras alternativas fossem impossíveis dentro das limitações da conjuntura histórica do pré-golpe.
A presença de civis e o papel desempenhado pelos militares na tomada do poder não costumam ser problematizados.
Na maioria dos livros analisados, o ex-presidente Jânio Quadros é constantemente retratado como um homem carismático, mas imprevisível. A renúncia de Jânio, em 1961, foi apontada como uma das causas centrais do golpe militar em boa parte dos livros dos anos 1970 e 1980, mas ela praticamente desaparece nos livros mais recentes. Essa mudança se dá, provavelmente, pelas referências historiográficas que servem de apoio aos autores dos livros. Naquelas décadas, havia a influência do trabalho de Thomas Skidmore (Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco, de 1969), que enfatiza a crise de 1961, ao passo que nos livros produzidos após a década de 1980 houve a influência da reflexão de René Dreifuss (1964. Aconquista do Estado, de 1981), que minimiza essa crise. É interessante notar que o trabalho de Argelina Figueiredo (Democracia ou Reformas?, de 1993), que revaloriza a crise de 1961, é mencionado em apenas um dos livros analisados.
Alguns deles destacam que as “agitações políticas” durante o governo de Goulart teriam desencadeado o golpe de 1964, como a Revolta dos Marinheiros, em 25 de março do mesmo ano. Já segundo outras obras, a “incapacidade do governo de João Goulart” foi uma das principais causas do golpe militar e civil. A referida incapacidade diz respeito às escolhas feitas por ele e à sua suposta covardia, demonstrada na sua fuga do Brasil no momento em que os militares tomavam o poder. Na maioria dos livros didáticos das décadas de 1970 e 1980, os golpistas não seriam apontados como causa fundamental do golpe. Neles, as origens do golpe estão ligadas, em geral, a crises econômicas e à inabilidade de João Goulart no governo.
Nos livros das décadas seguintes, essas duas origens não mais aparecem. Porém, surgem quatro causas novas: choques entre grupos de esquerda e grupos de direita, fatos que ocorreram em março de 1964, política desenvolvimentista da década de 1950 e que o golpe de 64 teria sido um adiamento do golpe planejado em 1961.
Em geral, a inevitabilidade do golpe está presente.  E isso tanto nos livros que enfatizam a ideia de que 1964 foi fruto de uma conspiração como naqueles em que o golpe é visto como uma ação preventiva da direita contra uma futura ação da esquerda revolucionária. Um aspecto factual, por exemplo, merece ser problematizado em sala de aula. Trata-se da vacância da Presidência. Muitos livros atribuem a suposta fuga de João Goulart para o Uruguai como a razão da decretação da vacância pelo presidente do Senado, Auro de Moura Andrade. Essa “versão” é desmentida pela realidade e legitima o golpe. Na verdade, a vacância anunciada em 1º de abril de 1964 foi inconstitucional, na medida em que João Goulart permaneceu no país até o dia 4 de abril.
É importante perceber que os livros didáticos não são uma mera transposição de um saber acadêmico para um saber escolar. Os autores dos livros didáticos  desempenham a função de conservação e recriação da memória ao escreverem e reescreverem continuamente a história de acontecimentos como a ditadura militar. Eles se tornaram os guardiões e construtores do saber escolar e da memória histórica. Seria necessário pensar a História para além da fascinação pela origem. Afinal, a contradição que os historiadores das origens pretendem superar é, em certa medida, insuperável, pois, após uma longa busca das causas “profundas” e “imediatas”, eles retornam sempre ao caráter contingente do começo de um evento. Assim, além da ocorrência do golpe, outra questão de fundo a ser pensada é a seguinte: por que razões o golpe de 1964 foi duradouro e bem-sucedido do ponto de vista daqueles que foram vitoriosos?
Uma boa compreensão do contexto tende a ser mais interessante do que a busca das “causas”. A hierarquização de “causas” tem uma eficácia didática, mas não necessariamente explicativa. Assim, é preciso criar situações em que os alunos possam relativizar a importância de uma causa de curta, média e longa duração em detrimento de outras. Algumas atividades podem ser estimulantes, como pedir que cada grupo eleja e defenda uma “causa” como determinante, ou confrontar o texto do livro didático com a Wikipédia. O que pode levar, inclusive, a uma tentativa de reformulação do texto da enciclopédia digital.
Para esse tipo de atividade, um importante auxílio aos professores pode ser obtido em sites e blogs sobre o tema. O blogbrasilrecente.com, por exemplo,traz respostas complexas para questões como: por que Goulart não resistiu? Goulart poderia tornar o Brasil socialista?Ao refletir sobre essas e outras questões, é preciso fazer a difícil articulação entre o passado e o presente. Assim, pode ser interessante questionar o que permanece da ditadura na sociedade brasileira. Construir comparações ou analogias, por meio da análise de diferenças e semelhanças entre, por exemplo, questões relativas à tortura e à violência de ontem e de hoje pode ser um importante instrumento de politização e desenvolvimento do pensamento histórico. Trata-se de refletir continuamente sobre o que se passou antes e depois que a experiência democrática vivida pelo Brasil desde 1945 foi lamentavelmente interrompida no ano de 1964. O livro didático é, assim, apenas mais um instrumento desse processo.
Um uso bom e criativo do livro didático pressupõe que o professor trabalhe com um conceito de tempo mais heterogêneo e plural, e continuamente se interrogue sobre a elaboração do livro como um todo. Em outras palavras, é importante questionar o que fabrica o autor de livros didáticos quando escreve a História. Esse tipo de postura crítica e ativa contribui para manter presente o acontecimento “golpe de 1964”, a fim de guardá-lo como algo a ser pensado, impedindo sua dispersão no tempo e no esquecimento.

Mateus Henrique de Faria Pereiraé professor da Universidade Federal de Minas Gerais e autor de A Máquina da Memória/Almanaque Abril: o tempo presente entre a história e o jornalismo (Edusc, 2009).

Saiba Mais - Bibliografia
CERRI, Luís Fernando. “O estudo empírico da consciência histórica entre jovens do Brasil, Argentina e Uruguai”. In: FONSECA, Selva Guimarães; GATTI JR., Décio. (orgs.). Perspectivas do Ensino de História: ensino, cidadania e consciência histórica, vol. 1.  Uberlândia: Editora da Universidade Federal de Uberlândia, 2011.
FICO, Carlos. “Versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar”. In: Revista Brasileira de História,2004.  
TELES, Edson; SAFATLE, Vladimir. O que resta da ditadura: a exceção brasileira. São Paulo: Boitempo, 2010.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Quentes, sujas e doentias A vida e a saúde nas cidades coloniais estavam muito distantes do paraíso tropical imaginado pelos europeus


Cristina Brandt Friedrich Martin Gurgel
Acarta de Pero Vaz de Caminhaafirma, sobre a terra descoberta, que se “querendo aproveitá-la, tudo dará nela, por causa das águas que tem”. Mas, menos de um século depois,os comentários já não eram tão generosos. Nofinal do século XVI, as descrições sobre a Colônia falavam de uma terra “quente como um vulcão e doentia”, considerada imprópria para uma vida saudável e tranquila. A paradisíaca visão inicial dos europeus sobre os trópicos,  explicitada por Sérgio Buarque de Holanda em Visão do Paraíso,logo sucumbiu à dura realidade do diaadia, e os colonizadores não demoraram a perceber isso.
Havia o calor e a distância dos grandes centros comerciais. Issodificultava, por exemplo,a aquisição de bens de consumo, já que o transporte marítimo era irregular e descontínuo. Produtos simples, que facilitassem a vida ou proporcionassem pequenos prazeres, como roupas, sapatos, farinha de trigo e vinhos,estavam praticamente fora de alcance. Além disso, mal as aglomerações urbanas começaram a surgir,tiveram queenfrentar os primeiros surtos de doenças contagiosas.
Diante do desconforto, da difícil adaptação ao clima e do aparecimento de epidemias que arrasavam a população, a salubridade das paragens brasileiras começou a ser duramente questionada. Os viajantes e jesuítas que propagavam a ideia dos “bons ares”da nova terra e recomendavam aos doentes de além-mar que atravessassem o Atlântico para aqui se tratarem foram desacreditados. Com o passar dos anos, poucos concordavam com as recomendações do padre Anchieta, que afirmava ter sido curado de uma séria enfermidade pelos bons ares e pelo clima ameno da nova terra. O dia a dia mostrava-se diferente. Não sabiam os colonizadores e seus descendentes que eram eles próprios os responsáveis por muitas das doenças que os assolavam, como tuberculose, sarampo e varíola.
A pequena população urbana brasileira vivia em vilas e cidades acanhadas. As moradias serviam apenas como abrigo contra as intempéries, em local defensável contra uma possível invasão inimiga – índios, piratas, franceses, ingleses ou holandeses. No início, os espaços urbanos localizavam-se perto da costa e possivelmente não abrigavam mais de 40 colonos – o número de famílias era contabilizado pelos “fogos” que ardiam na cozinha de suas casas.
Braços escravos levantaram as casas, igrejas, edifícios públicos e muros das povoações coloniais. Diante de uma natureza desconhecida e hostil, os nomes de santos dos nascentes núcleos urbanos serviam para afastar seus demônios e cristianizar a paisagem. São Paulo era descrita no século XVII como uma vila de duas centenas de fogos, formada por prédios acanhados e alcovas restritas, com pouco asseio nas ruas e quintais e nenhum sistema de esgoto ou água encanada.
Em termos de salubridade, São Paulo, naquele século, não era diferente de outros núcleos urbanos brasileiros e sequer de Lisboa, onde por muito tempo persistiu um modo peculiar de livrar-se das fezes e da urina: lançavam-nas pelas portas e janelas.Para evitar que transeuntes fossem atingidos por tão desagradável carga, foi elaborado um decreto que obrigava o cidadão a gritar “água vai!” ao atirar os excrementos às ruas. No Brasil, os dejetos humanos eram carregados e jogados diretamente nas águas do mar ou nos rios por cativos – os “tigres”, escravos com pele listrada pela acidez dos detritos que lhes escorriam pelas costas através da palha dos cestos. Até hoje, em São Luís do Maranhão, o povo perpetuou o nome de “Beco da Bosta”, um antigo trajeto usado pelos escravos para jogar as fezes e a urina de seus senhores no mar.
Uma maneira mais engenhosa de higienização urbana foi posta em prática em Paraty, no atual estado do Rio de Janeiro. Elevada à categoria de vila em 1667, suas ruas, mais baixas em relação às casas, foram traçadas obedecendo às normas coloniais. Todas as vias são côncavas, formando uma canaleta central que se direciona para o mar, o que permite a invasão das águas nas marés altas. Com o baixar das águas, todos os detritos eram levados para o mar. Mas, em geral, os núcleos urbanos aguardavam as chuvas para sua limpeza, e diante da imundície que se acumulava, as doenças infectocontagiosas tinham um lugar ideal para sua disseminação.
A expectativa de vida destas populações era baixa, condenada tanto pelas condições adversas do meio quanto por uma medicina ausente ou ineficaz. Johan Nieuhof (1618-1672), um funcionário da Companhia das Índias Ocidentais holandesa que viveu no Nordeste entre 1640 e 1649, ali testemunhou índices de sobrevida alarmantes entre filhos de estrangeiros: apenas uma de três crianças nascidas vivas conseguia sobreviver.  
Cidades como Salvador, de construção planejada, tinham espaços limitados, murados, o que fazia com que a população, apesar de pequena, vivesse aglomerada. Os poucos cuidados com as edificações limitavam-se àexposição aos ventos e à umidade, que poderiam tornar a saúde mais frágil.Apesar desses cuidados, frequentementeapareciam nos espaços urbanos casos de “icterícias” – leptospirose?  hepatite? malária? –, uma praga que se espalhava nos meses chuvosos, de tal maneira que suas vítimas assumiam um assustador aspecto macilento e cadavérico. Muitos morriam, alguns tão rapidamente que sequer havia tempo para receberem os últimos sacramentos.
Distúrbios gastrointestinaiseram comuns, como as “câmaras de sangue” (disenterias sanguinolentas), doenças oculares como uma “meia-cegueira” (conjuntivites comuns ou específicas)–que acometia principalmente soldados e pobres de origem europeia–e afecções de pele. Sobre a hanseníase, até meados do século XVII há poucas referências nas crônicas e documentos. Uma delas está nasnotícias sobre a primeira área de isolamento de doentes conhecida no Brasil – o Campo de Lázaros, em Salvador (1640) – e sobre o projeto de um hospital próprio no Rio de Janeiro. Em contrapartida, alusões à doença tornam-se cada vez mais frequentes no século seguinte.
Mas o que de fato abalava a população era a ocorrência de uma grande epidemia. Gripe, sarampo, febre amarela e, em especial, a varíola periodicamente assolavam também os espaços rurais. A fragilidade da vida na Colônia tornava-se mais evidente: houve períodos de fome, pela falta de braços na agricultura; desestruturação social, principalmente indígena; falta de assistência médica e hospitalar e, sobretudo, a perda de vidas em um país com um já enorme vazio demográfico. No final do século XVI, o Rio de Janeiro tinha aproximadamente 1.000 moradores e nenhum médico formado.
Os Senados das Câmaras continuamente solicitavam ao poder central o envio de médicos, então denominados físicos. Mas, escassos em Portugal e diante das dificuldades impostas pela vida colonial, poucos se aventuraram no Brasil. Uma solução encontrada foi a contratação e o pagamento de profissionais pelo governo de Lisboa. Os salários não eram tentadores: durante o governo de Tomé de Souza (1549-1553), o físico Jorge Valadares tinha ordenado anual pago pela Coroa de 60 mil réis– um bispo recebia 200mil réis anuais. Para conseguirem se manter, os médicos exerciam mais de uma profissão, e suas atividades, devido à falta de moeda corrente,podiam ser pagas com panos, açúcar, galinhas, milho ou algodão.
Os físicos que vieram para o Brasil nos primeiros séculos da colonização não se destacaram em seus feitos. É raríssimo encontrar alguma obra escrita de valor, como a de Ferreira Rosa, que, como testemunha da primeira epidemia de febre amarela no país, foi imortalizado por seu Tratado Único de Constituição Pestilencial de Pernambuco, publicado em Lisboa em 1694. Na maioria das vezes, a qualidade do trabalho dos físicos era vista com desconfiança porque havia poucos resultados favoráveis da medicina oficial. Um dos exemplos está num pronunciamento do bispo do Grão Pará e Maranhão, frei Caetano Brandão, já no século XVIII: “É melhor tratar-se a gente com um tapuia do sertão, que observa com mais desembaraçado instinto, do que com um médico de Lisboa”.
A população brasileira vivia, de fato, muito longe do paraíso.
Cristina Brandt Friedrich Martin Gurgelé professora de Clínica Médica da Pontifícia Universidade Católica de Campinas e autora de Doenças e Curas. O Brasil dos Primeiros Séculos (Contexto, 2010).

Saiba Mais - Bibliografia
OMEGNA, Nelson. A Cidade Colonial. Brasília: Ebrasa,1971.
ROCHA PITTA, Sebastião. História da América Portuguesa. Bahia: Imprensa Econômica, 1878.
SANTOS FILHO, Lycurgo. História Geral da Medicina Brasileira. São Paulo: Editora de Humanismo, Ciência e Tecnologia Ltda. e Editora da Universidade de São Paulo, 1977.
VON MARTIUS, Karl Friedrich. Natureza, Doenças, Medicina e Remédios dos Índios Brasileiros (1844).  São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1939.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Vargas para todos os gostos Mal ou bem, só falam dele



Por Marieta de Moraes Ferreira http://www.revistadehistoria.com.br/v2/images/nada.gif

O que é que Getulio tem? Como explicar que um líder falecido há mais de meio século continue exercendo forte influência no cenário político do país? Por que, afinal, sua figura é lembrada e relembrada – seja para o elogio, seja para a crítica – sempre que se discutem os grandes temas nacionais?
Em agosto de 2004, quando o suicídio de Getulio Vargas completou 50 anos, o Brasil assistiu a uma onda de celebrações em memória ao ex-presidente. Seminários, exposições, debates, construção de memoriais, artigos em revistas especializadas, cadernos especiais nos jornais, programas de rádio e televisão. O tom era francamente positivo, com as atenções voltadas para o seu segundo governo (1951-1954) – tempos de crescimento econômico e de implantação de políticas industriais que estimularam a ampliação do mercado de trabalho, o que possibilitou maior inclusão social. Tudo isso sob a vigência de normas democráticas. Nos dias de hoje, é compreensível que esse cenário provoque nostalgia naqueles que voltam o olhar para a década de 1950. Afinal, integrar o pleno funcionamento da democracia com a retomada do crescimento econômico e a diminuição das desigualdades sociais ainda é o grande desafio brasileiro.
Nem sempre a memória de Vargas recebeu tratamento tão nobre. Em primeiro lugar, porque se trata de um personagem bastante ambíguo – se por um lado contribuiu com inegáveis avanços para o desenvolvimento do país, por outro liderou um período autoritário e de repressão política em seu primeiro governo (1930-1945). Além disso, no último meio século o Brasil atravessou grandes mudanças políticas e institucionais. À experiência democrática iniciada em 1946 sucederam-se, a partir de 1964, vinte anos de ditadura militar, até que em 1985 se iniciasse novo processo de construção da democracia. Para cada um desses momentos veio à tona um Vargas diferente.
Agosto de 1964. Os dez anos do suicídio coincidem com o início de um novo regime: o golpe militar havia ocorrido em 31 de março daquele ano. Não poderia haver momento pior para o cultivo da memória de Vargas. Seu principal herdeiro, o presidente João Goulart, havia sido deposto, e um grande número de partidários do PTB e do PSD, partidos que lhe deram sustentação no segundo governo, foram afastados da vida pública. Os militares que tomaram o poder apresentavam-se como aqueles que iriam pôr fim à Era Vargas.
“A queda do império getuliano” foi o título de um conjunto de textos publicado no Jornal do Brasil no domingo, 23 de agosto de 1964. Três grandes reportagens procuravam enfocar sua trajetória sob diferentes ângulos. A primeira tratava de aspectos pessoais, da infância até a formação na Faculdade de Direito e o início da vida profissional como promotor. Ainda que de caráter pouco opinativo, o texto deixava entrever simpatia pelo personagem. A seguir apresentava-se uma cronologia comentada dos principais fatos políticos que contaram com a participação de Vargas, como a Revolução de 1930, o golpe de 1937, a deposição em 1945 e a volta ao poder pelas urnas em 1950. Por fim, a matéria intitulada “Memórias de agosto” fazia uma retrospectiva dos acontecimentos que antecederam o suicídio. Em destaque, o depoimento de Café Filho – vice-presidente de Vargas e seu sucessor, cujo breve governo se aproximou da oposicionista UDN –, que apenas relembrava os episódios, sem fazer qualquer julgamento: “Um ex-presidente não deve julgar um ex-presidente”. Talvez os ex-presidentes Kubitschek e Goulart não pensassem da mesma forma, mas eles estavam no exílio e não foram ouvidos.
Curioso é que, enquanto o golpe de 1964 foi visto por alguns como a “segunda morte de Vargas”, não demorou para que o governo adotasse um projeto autoritário que incluía exatamente as idéias de um Estado centralizado e de um sindicalismo corporativista – como se viu na tradição varguista. Por isso, quando chegou 1974, vigésimo aniversário de sua morte, a memória de Vargas ganhou outro tratamento. Na Câmara dos Deputados, os líderes dos novos partidos políticos (a Arena, de apoio ao governo, e o MDB, de oposição consentida) proferiram discursos em sua homenagem. Naquele teatro oficial, o tom era de ênfase no desenvolvimento econômico. Houve também algumas tímidas manifestações nas ruas do país. No Rio de Janeiro, elas se concentraram na praça da Cinelândia, em frente ao busto do presidente. Flores foram deixadas ao pé do monumento e duas mil cópias da carta-testamento foram distribuídas, muitas trazendo também os nomes de candidatos ao Congresso Nacional. Em Porto Alegre, o MDB homenageou Vargas com uma missa e uma concentração política diante do monumento à carta-testamento.
Já a imprensa não produziu apenas conteúdos positivos. Um artigo do jornalista Carlos Castello Branco, publicado em caderno especial do mesmo Jornal do Brasil, indica sua intenção crítica já pelo título: “A ditadura”. O autor rememora a censura praticada no Estado Novo, a ação repressora do governo diante das manifestações políticas e as prisões efetuadas. A figura que emerge é a do Vargas ditador, odiado por aqueles que defendiam a liberdade de expressão e a democracia. Para Castello Branco, a ditadura de Vargas propiciava a “corrupção sob todas as formas e se tornava ineficiente como fator de mobilização para o trabalho. (...) A ditadura é por definição centralista, mas no Brasil daqueles tempos, sem comunicações, havia, além de uma ditadura estadual, ditaduras culturais”.    Qualquer semelhança com o contexto da época certamente não se deve a coincidência. Carlos Castello Branco se utiliza da condenação ao autoritarismo do Estado Novo para realçar as arbitrariedades do regime em vigor.
A partir do final de 1978, quando foi revogado o Ato Institucional n° 5, o mais drástico da legislação de exceção editada pelo regime militar, os ventos da abertura começaram a soprar com mais força. No ano seguinte, foi decretada a anistia política e a reforma partidária. Muitos exilados voltaram ao país, e em 1982 houve eleições diretas para governador. Em 1983, um outro tipo de comemoração foi preparado em torno de Vargas: celebrou-se o centenário de seu nascimento.
Os novos ares democráticos possibilitaram a realização de diversos debates sobre a Era Vargas. Pela primeira vez sua memória alimentava análises sobre a história recente do país, a partir de comparações entre diferentes períodos. A reestruturação dos partidos políticos desencadeada em 1979, por exemplo, foi discutida à luz do cenário pós-1945, quando o país também viveu um retorno à democracia. A diferença era que, no pós-Estado Novo, o getulismo e o antigetulismo eram determinantes no jogo político, enquanto no início dos anos 1980 não havia nenhum partido ou núcleo político declaradamente antigetulista. Ao contrário, o getulismo e sobretudo o trabalhismo passaram a ser utilizados como trunfo eleitoral por vários partidos. A exploração eleitoral voltava-se para uma parte específica da memória de Vargas: seu lado nacionalista e patriótico, tal qual exposto na carta-testamento.
De modo geral, o centenário de 1983 redimiu a figura de Getulio Vargas associando-a ao seu segundo governo, democrático e nacionalista. Ainda que alguns artigos mencionassem a face autoritária do líder, o foco não se fixava nessa questão. No ano seguinte, a comemoração dos 30 anos da morte de Vargas assumiu grande relevância no cenário político.
Assim que foi rejeitada a emenda das “Diretas Já”, a oposição lançou a candidatura de Tancredo Neves para a eleição indireta à Presidência. Político conciliador, Tancredo era governador de Minas Gerais. E ex-ministro de Vargas. Em agosto de 1984, o candidato da Aliança Democrática – formada pelo PMDB e pelos dissidentes do governo – juntou-se a Leonel Brizola, do Partido Democrático Trabalhista (PDT, herdeiro do antigo PTB), e a outros líderes em uma caravana rumo a São Borja (RS), cidade natal de Getulio, para prestar-lhe uma homenagem. A memória de Vargas ajudou a costurar a aliança entre PDT e PMDB. Unidos para reverenciar o passado, os dois partidos estavam de olho no futuro. “Getulio é realmente aquele divisor de águas, aquele que havia dado mais que a sua vida, havia dado todo o seu espírito a serviço da emancipação política, econômica e social do nosso povo. (...) Feliz a pátria que pode possuir homens públicos da sua estatura; feliz a nação que pode se honrar de ter tido um filho deste vulto e deste porte”, afirmou Tancredo Neves na ocasião. Brizola aproveitou para sugerir que, dali em diante, 24 de agosto fosse considerado o “Dia da Carta-testamento”. “Mais que a morte do presidente Getulio Vargas, a referida data assinala o lançamento daquele grande manifesto, cujo impacto e a posterior influência sobre os destinos do povo brasileiro são de uma profundidade que ainda não estamos em condição de avaliar. Divulgar o pensamento conclusivo do maior estadista deste século é uma questão cívica que interessa ao conjunto da Nação, com vistas às novas gerações”, discursou o gaúcho, governador do Rio.
A redemocratização do país não transcorreu sem percalços. Eleito presidente em janeiro de 1985, Tancredo morreu antes de tomar posse. No governo de seu sucessor, o vice José Sarney, todas as atenções se voltaram para o combate à inflação, que progredia em ritmo alarmante. A memória de Vargas também não navegaria em águas calmas.
“A Era Vargas acabou”. O mote, que reverbera o discurso dos militares do golpe de 1964, ressurgiu no início dos anos 1990. Era o momento de questionar o modelo de desenvolvimento econômico inaugurado por ele. Em 1994, analistas defendiam que a tendência mundial de abertura das economias, de privatização das empresas estatais, redução da ação do Estado, controle das contas públicas e ajuste fiscal resultaria, para o Brasil, na “terceira morte de Vargas”.
Este foi o título de um artigo assinado pelo cientista político Bolívar Lamounier naquele ano. Segundo o autor, com novas instituições, uma opinião pública livre e novos meios de comunicação, o país vivia um período de construção democrática, no qual desaparecia “a preocupação com a tutela das Forças Armadas sobre o sistema político”. Por isso seria possível “afirmar que o getulismo e o antigetulismo virulentos feneceram”. Outras críticas foram expressas na ocasião, como fez um editorial do Jornal do Brasil (25/8/1994) que apontava o corporativismo como herança negativa do varguismo enraizada na sociedade brasileira.
A oposição, por sua vez, tentava usar o mito a seu favor. Para a economista Maria da Conceição Tavares, o então candidato à Presidência pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva, era o principal herdeiro do trabalhismo de Vargas, enquanto o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), de Fernando Henrique Cardoso, poderia ser comparado à antiga UDN. Depois de eleito FHC, muitas vozes da oposição continuaram a apregoar os valores positivos de um certo legado varguista. Na luta contra as privatizações e no debate sobre a revisão da legislação trabalhista, a figura de Getulio era acionada para contestar os novos rumos tomados pelo país.
O embate ganhou novas feições em 2004. Desde o ano anterior, o país vivia sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-líder operário que iniciou sua carreira política no final do regime militar, fundando o PT, e que jamais se declarou, ele próprio, herdeiro de alguém.
Contrariando certas expectativas de que o velho líder não mais despertaria grande interesse, naquele ano Vargas ressurgiu com grande vigor. Os principais jornais do país prepararam alentados cadernos especiais. As revistas de História dirigidas ao grande público saíram com fotos de Vargas estampadas na capa. Políticos e intelectuais dedicaram-se a discutir o assunto.
Para alguns analistas, a vitória de Lula na eleição de 2002 poderia representar a retomada de alguns ideais do nacional-estatismo. Cristóvam Buarque, ministro da Educação de Lula até janeiro de 2004, foi um dos que colocaram 1954 em pauta: “Apesar da revolução que significou a eleição de Lula e o governo do PT, 2004 ainda não deixou claro o novo rumo que o país precisa e espera desde 1954”. O ex-ministro não chegava a defender as opções de Vargas, mas destacava a necessidade de conhecê-las para criar um outro projeto nacional: “Ainda é tempo de mudar, de reorientar o Brasil. Lembrar o passado em geral é o melhor passo para começar a construir o futuro. O futuro da continuação do mesmo, dos últimos 50 anos, ou da construção do novo para o século XXI”, escreveu.
A idéia de “construção do novo” não era compartilhada por todos os setores do governo. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por exemplo, criou o “Projeto Getulio Vargas”, que realizou seminários e produziu documentário, livro, exposição, show e memorial com a estátua de Vargas. O projeto manifestava a intenção de “contribuir para o fortalecimento da história [de Vargas], a valorização de seu legado e, sobretudo, o resgate da memória de importantes conquistas para o cidadão brasileiro”. Então presidente do banco, o economista Carlos Lessa defendia o nacionalismo e as políticas econômicas de Vargas, em oposição ao projeto neoliberal do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Nas palavras de Lessa, “um presidente de alma seca achou que devíamos enterrar a Era Vargas. O que este presidente deixou de legado?” Reforçando a associação do novo presidente com o antigo líder trabalhista, afirmava que “a agenda recuperada de Vargas nos aponta uma continuidade entre o nacional-desenvolvimentismo dele e de sua época e o desenvolvimentismo nacional democrático de Lula”.
Poucas vozes eram exclusivamente de críticas a Vargas. Uma delas foi a do Instituto Liberal, de oposição ao governo Lula. Cândido Prunes, vice-presidente do Instituto, argumentava que o país cometia um erro ao esquecer “a truculência política da era Vargas”. E ia além: “Neste ano em que se registram os 50 anos do suicídio de Getulio Vargas, deveria se iniciar uma campanha pelo banimento do seu nome de todas as ruas, avenidas, praças e locais públicos. Foi ele um caudilho sanguinário que deveria merecer o opróbrio, como qualquer ditador. Ou então, por uma questão de justiça, comecemos a homenagear os militares ‘linha dura’ de 1964”.
Mas, em geral, as opiniões críticas não expressavam um antigetulismo radical. Mesmo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou, em palestra no jornal O Globo, que suas declarações ao tomar posse em 1994, relativas ao “fim da Era Vargas”, foram mal interpretadas. Afirmou que nunca fora antigetulista, apenas achava que o modelo varguista havia se tornado obsoleto nos novos tempos. E tratou de elogiar o líder: “Getulio não era caudilho. Foi fruto das circunstâncias, mas tinha capacidade tática, malícia, visão”.

De lá para cá, grandes temas da Era Vargas continuam na ordem do dia, como o desenvolvimentismo, o nacionalismo e a intervenção do Estado na economia. Discussões que devem ganhar nova roupagem com a chegada das eleições. Não se sabe ainda como a figura do líder vai reaparecer, mas uma coisa é certa: 54 anos após 54, Getulio continua vivo. E bem na foto.

Marieta de Moraes Ferreira é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC).

Saiba Mais - Bibliografia:

BRANDI, Paulo. Da vida para a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
GOMES, Ângela de Castro; PANDOLFI, Dulce Chaves; ALBERTI, Verena (coord.). A República no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/CPDOC, 2002.
HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.
SILVA, Hélio. Um tiro no coração. Porto Alegre: L&PM, 2004.


Fonte: Revista Brasileira da Biblioteca Nacional

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Cachaceiro é cachaceiro



Quando a cachaça era bebida de negro e subia para a cabeça, quando se entornava muito, dizia-se embriaguez, bebedeira, mona, porre, pifão, puxando-um-fogo e que tais. Estes designativos que menosprezam os apreciadores da cachaça, com a entrada dos brancos para o cordão da "branquinha" tudo se modificou: — uma dose de cachaça é uma "batida"; um porre de cachaça é uma crise etílica passageira; um cálice de cachaça na mesa de um bar chique chama-se abrideira; um coquetel à base de cachaça antes de um jantar chique chama-se aperitivo.                                                    
 Quando um bebedor de cachaça excede-se na bebida das "batidas", sobrevém o pifão, na linguagem popular. Mas, se o bebedor de cachaça é grã-fino o fato anormal não se chama pifão, o nome técnico chama-se intoxicação etílica. Até entre as classes sociais há diferenciação entre os termos dos cachaceiros.

quinta-feira, 12 de julho de 2012


FORMAÇÃO DE PROFESSORES NA ÁREA DE HISTÓRIA: ENTRE PRÁTICAS E DISCURSOS.
Rodrigo Lemos Simões

Palavras-chave: educação, formação, práticas, discursos.

Este texto traz algumas reflexões a respeito das vivências do autor enquanto professor nas disciplinas de Estágio Supervisionado no Curso de Licenciatura em História, as experiências na formação dos estagiários ao longo da graduação, suas vivências prévias e o contato com os alunos da Educação Básica. Buscamos na bibliografia especializada, entre autores que trabalham a temática da formação de professores, sejam eles pedagogos ou historiadores, subsídios para compreensão do que significa a formação docente em prol de uma prática reflexiva, estabelecendo paralelos entre os discursos e as práticas educativas de profissionais com formações diferenciadas. 
O primeiro ponto a ser trabalhado é algo que a muito nos chama atenção. A experiência como orientador nas disciplinas de estágio, nos possibilitou constatar que existe uma demasiada preocupação dos acadêmicos com o domínio dos conteúdos específicos, e uma incapacidade de relacioná-los com os concebidos nas disciplinas pedagógicas e, assim, transmiti-los ao nível de compreensão dos seus alunos. Para os acadêmicos do Curso de História, dominar os saberes específicos, de alguma forma parece representar a garantia de sua capacidade de atuação.
Respeitando os lugares e os momentos históricos diferentes em que foram e são constatados vários problemas na formação inicial dos professores de história, observa-se a permanência de um choque de realidade entre a formação acadêmica e a realidade da prática de ensino nas escolas. Tais problemas se evidenciam não só durante o estágio curricular, mas também nos primeiros anos da carreira de professor iniciante, como aponta Tardif:
Os cursos de formação para o magistério são globalmente idealizados segundo um modelo aplicacionista do conhecimento: os alunos passam um certo número de anos a assistir a aulas baseadas em disciplinas e constituídas de conhecimentos proposicionais. Em seguida, ou durante essas aulas, eles vão estagiar para aplicarem esses conhecimentos. Enfim, quando a formação termina, eles começam a trabalhar sozinhos, aprendendo seu ofício na prática e constatando, na maioria das vezes, que esses conhecimentos proposicionais  não se aplicam bem na ação cotidiana.
(TARDIF, 2002, p.270)

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Situações postas à História


Resumo

O objetivo principal do artigo é refletir sobre a história como conceito e como prática, além de interrogá-la como crença socialmente compartilhada. Nessa longa história de uma crença, com seus tempos de certeza e outros de dúvida, dois momentos serão privilegiados neste artigo. Em primeiro lugar, os meados do século XX, quando, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, a evidência da história será rapidamente reafirmada. Em segundo lugar, o momento atual, encarado como aquele em que a evidência se esfuma e em que a crença se fissura. Tratar-se-á, portanto, de refletir sobre a resistência de um dos conceitos centrais do mundo moderno e de algumas de suas transformações.

sábado, 7 de julho de 2012

O lunário perpetuo


Documentos antigos:
O lunário perpetuo é uma fonte de pesquisa história muito importante, que possibilita uma (re)leitura acerca do imaginário, sobretudo do sertanejo. Este livro aborda de forma sistematizada aspectos das “previsões meteorológicas”, como também se preocupava com o cotidiano das famílias. Na edição de 1912, constatamos informações preciosas acerca da saúde, ciência, educação e bons modos. a obra foi adquerido por José Francisco de Oliveira, no ano de 1919.  


Conforme cita MACEDO, a primeira edição desta obra é de 1703 e “por dois séculos o livro mais lido nos sertões do Nordeste, informador de ciências complicadas e astrologia, dando informações sobre horóscopo, rudimentos de físicas, remédios estupefacientes e velhíssimos. Não existia autoridade maior para os olhos dos fazendeiros e os prognósticos meteorológicos, sem maiores exames pela diferença de hemisférios, eram acatados como sentença”.
(MACEDO, Muirakytan Kennedy de Macedo. A penúltima Versão do Seridó. Natal, 2005. 


quinta-feira, 5 de julho de 2012

O ensino de História no século XXI


*Entrevista com a Professora Keila Gringber acerca do ensino de história.

revistapontocom – O que hoje não se pode deixar de ensinar, na área de História do Brasil, na Educação Básica?

Keila Gringber - O ensino de História melhorou nos últimos tempos, e muito. Temos à disposição mais e melhores livros didáticos, bem como uma infinidade de recursos para usar em nossas aulas. Incorporamos novos temas, e nos aproximamos mais da realidade dos nossos estudantes. No geral, não precisamos mais seguir um currículo pré-determinado, podendo adaptar os conteúdos às especificidades das escolas e dos alunos. Mas ensinar História continua sendo um grande desafio. Ainda damos aula como se dava há cem anos atrás, à base da voz, do giz ou do pilot, e geralmente usamos a tecnolog ia como uma bengala para ilustrar nossas aulas, não como uma forma de introduzir uma nova relação com o conhecimento.

revistapontocom – O que é preciso ser aprendido, na área de História do Brasil, pelos alunos na Educação Básica?

Keila Gringber – Ao contrário de disciplinas como Português ou Matemática, ainda seguimos tendo que explicar por que História é importante. Estudar História é tão importante quanto qualquer outra ciência: o mais importante não é o conteúdo em si, mas compreender como tal conhecimento foi sendo construído por gerações e gerações de seres humanos; e que, como toda criação humana, ele é sempre datado e imperfeito.

revistapontocom – Qual é o principal desafio de se ensinar História do Brasil, nos dias de hoje, para os alunos na Educação Básica?

Keila Gringber – Mais que tudo, ainda não sabemos bem como despertar no aluno o interesse pela história. Talvez contando algumas, sentando na cadeira de balanço como faziam nossos avós, seja uma boa ideia.

revistapontocom – Se ensina História do Brasil, nos dias de hoje, da mesma forma que se ensinava no final do século XX? Se algo mudou, o que mudou e por quê?

Keila Gringber – Embora tenhamos substituído o ensino conteudista por aulas mais problematizantes, ainda nos vemos às voltas de como fazer com que nossos alunos vivenciem o conceito de tempo, central para a nossa disciplina e tão abstrato para jovens e crianças. Queremos que eles sejam capazes de formular questões sobre o passado, mas em geral negligenciamos o interesse das crianças por batalhas, roupas e outros detalhes que nós, professores, consideramos pouco importantes. Se conseguirmos que eles compreendam que não há mal que nunca perdure nem bem que nunca se acabe, teremos avançado um bocado. Não acho que isto seja pouca coisa. Com certeza os alunos têm muito o que aprender. Nós, os professores, mais ainda.


quarta-feira, 4 de julho de 2012

História do Brasil em Cronologia


HISTÓRIA DO BRASIL EM CRONOLOGIA

22/04/1500 - Expedição chefiada por Pedro Álvares Cabral, com dez naus, três caravelas e 1.500 homens a bordo, chegou no litoral da Bahia, avistou um monte que chamou de Monte Pascoal. No dia seguinte, a expedição aportou na Baia Cabrália, onde celebrou a primeira missa no território descoberto, que foi chamado de "Terra de Vera Cruz". O território era, então, habitado por cerca de 8 milhões de indígenas. Um relato sobre a terra encontrada é enviada ao Rei de Portugal, a Carta de Pero Vaz de Caminha.
1500-1530 - Não houve por parte de Portugal, intenção de ocupar o território, mas uma ocupação móvel, onde os portugueses percorreram a costa brasileira para defender a posse da terra e, eventualmente, fundaram modestas feitorias, entrepostos de troca do pau brasil – madeira para tinturaria bastante citada nos mercados europeus. Os indígenas forneceram a mão de obra para derrubar, descascar, atorar, transportar os troncos, que eram armazenados nas três feitorias fundadas, aguardando as naus que os levaria à Holanda.
1532 - Portugal e Espanha dividiram entre si os territórios conquistados pelo Tratado de Tordesilhas (1494), mas os franceses não aceitaram a validade jurídica do mesmo e ocuparam vários pontos do litoral brasileiro. Em resposta, a Coroa Portuguesa fez sua primeira tentativa para colonizar o Brasil; utilizando sua longa experiência na África e em Portugal, na Reconquista, implantou as Capitanias Hereditárias, dividindo o território em quinze faixas horizontais de terra, com cerca de 350 km de largura, que se iniciavam no litoral e terminavam no interior, na linha imaginária do Tratado.
1549 - Fracassado o projeto das Capitanias Hereditárias, a Coroa Portuguesa faz a segunda tentativa para controlar o território, com a criação do I Governo Geral, nomeando Tomé de Souza para primeiro governador geral.
1549-1553 - Os conflitos entre portugueses e indígenas foram uma constante desde o início da colonização. Tomé de Souza se aliou aos tupís e declarou guerra às outras etnias, escravizando os vencidos. Os jesuítas que desembarcaram com Tomé de Souza foram os únicos protetores dos índios; impediram a escravidão, mas a aplicação de uma moral rígida e militar, desrespeitou as tradições e a cultura indígena.
1553-1558 - Duarte da Costa, segundo governador geral, consolida o projeto de colonização, introduzindo a produção do açúcar.
1558-1572 - Mem de Sá, terceiro governador-geral, inicia a expulsão dos franceses, que tinham ocupado o Maranhão e o Rio de Janeiro.
1572 - As dificuldades para administrar o território, devido à distância entre o nordeste e o sul da Colônia, descentralizou os centros de controle, que passaram a ser realizados em duas cidades: Salvador e Rio de Janeiro.
1580-1640 - A anexação da Coroa portuguesa à espanhola, trouxe grandes prejuízos para o Brasil; a Holanda, antiga aliada dos portugueses, se transformou em inimiga, atacando e ocupando grandes faixas do litoral brasileiro, onde construíram fortes e fundaram cidades como a Cidade Maurícia (Recife).
1612-1616 - A expulsão dos franceses na costa norte permitiu que a região iniciasse um desenvolvimento econômico autônomo; o controle de seu litoral foi garantido com (re)fundação da cidade de São Luiz do Maranhão (1612) e a fundação de Belém do Pará (1616).
1620 - Os holandeses fundam a Cia. das Índias Ocidentais, com objetivos militares e comerciais, que promoveu ataques e ocupações nas colônias portuguesas e, principalmente, no Brasil.
1645-1654 - Os portugueses iniciam uma guerra contra os holandeses, que termina na expulsão destes últimos. Retomaram Recife nas Batalhas dos Guararapes e reduziram a presença dos holandeses a alguns fortes no litoral do nordeste.
1690 - Início da corrida e da ocupação da região das Minas Gerais em busca do ouro.
1707 - Guerra dos Emboabas, conflito dos paulistas e dos índios, liderados por Borba Gato, contra uma coligação de portugueses e de baianos (os emboabas), que saíram vitoriosos na posse do ouro das Minas Gerais.
1709-1710 - A Coroa reforçou o controle na zona de mineração com a separação das capitanias de São Paulo e Minas Gerais e a construção, no ano seguinte, da primeira estrada que uniu essa zona com o Rio de Janeiro.
1711 - Guerra dos Mascates, conflito que envolveu portugueses e índios (os mazombos), contra os comerciantes, chamados de mascates.
1718-1722 - Os paulistas, expulsos das Minas Gerais após a derrota na Guerra dos Emboabas, se adentraram pelo sertão de Goiás e Mato Grosso onde encontraram o ouro.
1744 e 1748 - Foram criadas as capitanias de Goiás e Mato Grosso.
1750 - Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madri para solucionar os conflitos nas "fronteiras de guerra" com o Mundo Hispânico; pelo tratado, a Coroa portuguesa entregou à espanhola as terras da margem ocidental do Rio da Prata e recebeu da Espanha a região Amazônica, Mato Grosso, Goiás e Rio Grande do Sul.
1750-1777 - O Marques de Pombal, obedecendo as diretrizes do iluminismo ilustrado, promoveu uma reestruturação administrativa na Colônia, visando a centralização do poder. Suas estratégias foram: a) finalizar a incorporação das capitanias à Coroa; b) promover uma ambiciosa política de urbanização e de controle das fronteiras que atingisse todo o território e; c) transferir a capital de Salvador para o Rio de Janeiro (1762), e dotar a cidade de melhorias urbanas e novas edificações públicas similares às de Buenos Aires e das cidades européias; d) elevar a Colônia à condição de Vice-Reino; e) estimular a diversificação da agricultura e o desenvolvimento da incipiente indústria colonial.
1785 - D. Maria, rainha de Portugal, afastou Pombal e emitiu um alvará proibindo qualquer tipo de indústria no Brasil, golpeando a siderurgia desenvolvida em São Paulo e as modestas tecelagens de Minas Gerais e do Pará.
1792 - Ocorre a Inconfidência Mineira, primeiro movimento pela independência do Brasil, influenciado nos ideários da Revolução Americana (1776) e da Revolução Francesa (1789). A resposta da Coroa foi a devassa, repressão que condenou à morte e ao degredo os principais líderes do movimento, como Tiradentes que foi enforcado e esquartejado.
1800 - Quando se encerrou o século XVIII, a população total brasileira atingia cerca de três milhões de habitantes. Salvador, a cidade mais populosa do Brasil, tinha 50 mil moradores, além dos 15 mil que habitavam em seus subúrbios; a capital, o Rio de Janeiro, tinha atingido 40 mil habitantes; Ouro Preto, que alcançara 30 mil em meados do século, com a decadência do ouro possuía apenas 20 mil habitantes, seguida de Cuiabá, Belém e São Luíz com 10 mil moradores.
1808 - A transferência da Corte portuguesa, para fugir das ameaças das Guerras Napoleônicas, trouxe vantagens para a nova Colônia-Reino: a) abriu os portos brasileiros para todas as nações; b) reformou e remodelou a cidade do Rio de Janeiro; c) estimulou a economia regional, diversificando a agricultura no sul e intensificando a produção do charque no Rio Grande do Sul; d) desenvolveu a cultura do algodão, cotado para a indústria têxtil inglesa.
1810 - O Tratado de Methuen consolida a dependência de Portugal ao imperialismo inglês, através de uma série de privilégios para a Inglaterra, provocando protestos de portugueses e brasileiros: a) os produtos ingleses foram taxados na Alfândega (15%)com valores inferiores aos portugueses (24%); b) os moradores ingleses poderiam ser julgados no Brasil de acordo com as leis inglesas e por juízes da Inglaterra.
1816 - Anexação do Uruguai ao Reino Unido do Brasil, com o nome de Província Cisplatina, respondendo aos sonhos expansão da monarquia absolutista portuguesa e o medo dos revolucionários criolos que promoviam as Guerras de Independência das colônias espanholas.
1817 - Primeira experiência republicana no Brasil, com a insurreição de Pernambuco pela independência e formação de uma República. Os proprietários de terra, enfraquecidos com a crise do açúcar, aderiram e se uniram aos revolucionários (artesãos e trabalhadores urbanos), que formaram um governo com uma constituição provisória. O movimento foi esmagado e seus líderes enforcados e esquartejados.
1821 - A Revolução do Porto uniu as classes dominantes, os militares e os revolucionários portugueses, exigindo o fim da monarquia absolutista e a formação de uma Assembléia Constituinte, obrigando D. João VI, a voltar para Portugal e deixando no Brasil seu filho D. Pedro, como Príncipe Regente.
9 de janeiro de 1822 - O Dia do Fico, representa a decisão do Príncipe Regente de permanecer no Brasil, desobedecendo as novas leis vindas de Portugal, que extinguia a regência e exigia a volta de D. Pedro.
7 setembro de 1822 - A Independência do Brasil marcou o fim da tumultuado conflito entre as tentativas de Portugal para (re)colonizar o Brasil e deixou para depois a resolução dos imensos problemas da nova nação: a crise econômica, a guerra com Portugal, a necessidade de reconhecimento pelas nações estrangeiras e a elaboração da nova Constituição.
11 de agosto de 1826 - Após trezentos anos de inexistência de Universidades, e com uma população alfabetizada de apenas 3%, o Imperador criou, por Lei, duas escolas de Direito nos moldes da Universidade de Coimbra: a de Olinda, para atender à população do norte, transferida em 1854 para o Recife, e a de São Paulo, para atender a demanda do sul.
1824 - A opção de D. Pedro pelos conservadores provocou, em Recife, a "Confederação do Equador" que se espalhou por todo o nordeste.
1825 - A Inglaterra assinou um tratado com o Império brasileiro, no qual reconheceu a independência do Brasil, em troca da garantia de continuidade de seus privilégios no Brasil. Portugal também foi favorecido nesse tratado, pois o Brasil se comprometeu a pagar o empréstimo feito pelo governo português a Londres, para combater os nacionalistas brasileiros e indenizar o rei de Portugal pelas propriedades tomadas pela guerra.
1826 - Entrou em funcionamento o Parlamento previsto pela Constituição de 1824.
7/4/1831 - D. Pedro, após o confronto com os deputados liberais, abdicou em favor de seu filho, de 5 anos de idade, e voltou para a Europa.
1831 - Inicia-se a Regência, com o poder nas mãos dos liberais, que tentaram, com sucesso, o saneamento econômico do Brasil.
1834 - Ato Adicional, onde os liberais tentaram implantar uma reforma política que diminuísse o centralismo e aumentasse a autonomia do poder local, através de eleições em todas as cidades do país, onde saíram vitoriosos os candidatos liberais.
1835 - O monopólio do poder pelo partido vencedor nas eleições marginalizou da oposição, desencadeando revoltas em várias províncias, das quais as mais conhecidas foram a Revolta dos Cabanos, no Pará, e a Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul.
1831-1850 - Acirramento da luta contra o tráfico de escravos, resultado do confronto entre o Brasil, econômica e culturalmente assentado na escravidão, e as nações européias, que concretizaram suas revoluções burguesas e industrial e ansiavam por transformar os escravos em seus futuros consumidores.
1837 - A renúncia de Feijó marcou o término do breve período liberal e descentralizante e dos planos liberais de contenção ao tráfico de escravos e eliminação da sociedade escravista.
1840-1841 - Para conter a onda conservadora, os liberais lançaram a campanha vitoriosa da maioridade de D. Pedro II que, coroado, formou um Ministério liberal, substituído no ano seguinte por um conservador, inaugurando o costume de troca de Ministérios que vigorou até o fim do Império.
1842 - Revolução dos liberais que, com os conservadores se organizaram como partidos políticos.
1844 - Venceu o tratado que concedia privilégios aos ingleses, na vigência de um Ministério liberal, que aproveitou a oportunidade para aumentar a taxar os produtos ingleses, permitindo sanear as finanças e implantar algumas experiências industriais.
1845 - A Inglaterra aprovou o Bill Aberdeen, lei que permitia aos navios ingleses atacarem, em águas internacionais, navios brasileiros envolvidos com o tráfico de escravos. Com a intensificação da repressão ao tráfico, os ingleses passaram a atacar os navios nos portos brasileiros. A extinção do tráfico internacional, resultado de um acordo secreto entre os dois governos, não impediu que continuasse, por muitas décadas, o tráfico interno, onde os cafeicultores adquiriram os escravos do nordeste.
1850 - A promulgação da Lei de Terras aumentou o poder dos proprietários de terra e donos de escravos; ao proibir a posse da terra aos que nela já habitavam, expulsou os índios e posseiros que lá viviam desde os tempos coloniais.
1890 - Crescimento acelerado da população brasileira que, graças à imigração estrangeira, atingiu 14,3 milhões de habitantes.
13 de maio de 1888 - A assinatura da Lei Áurea, pela Princesa Isabel, foi o término de um processo para atender os interesses capitalistas da Inglaterra, que pleiteavam a abolição da escravidão no Brasil.
15/11/1889 - Proclamação da República, com o afastamento do Imperador e sem derramamento de sangue.
Década de 1890 - Incentivo à política de imigração estrangeira, para substituir a mão de obra escrava; 184 mil imigrantes chegaram ao Brasil, se dirigindo principalmente ao estado de São Paulo.
1891 - A Constituição deste ano criou um conflito permanente, por concentrar o poder no Presidente e, ao mesmo tempo, permitir uma grande autonomia dos Estados.
1897 – O massacre do movimento de Canudos pela tropas federais evidenciou o descolamento entre a República e o povo brasileiro. Esse movimento inspirou duas obras primas da literatura latino-americana: "Os Sertões" de Euclides da Cunha e "A Guerra do Fim do Mundo" de Mario Vargas Llosa.
1897 – Afonso Pena, Presidente da província de Minas Gerais, inaugura a cidade de Belo Horizonte, com projeto Aarão Reis, nos moldes do urbanismo republicano.
1889-1930 - Período conhecido como "República Velha", caracterizado pela chamada política do café com leite, pela alternância no poder de representantes de Minas ou São Paulo. Priorizou o modelo agrário exportador e uma política contra a industrialização.
1904 – A Revolta da Vacina, movimento popular contra a vacinação compulsória, teve como antecedentes a remodelação da cidade do Rio de Janeiro, onde o Prefeito Pereira Passos expulsou os pobres que viviam no centro colonial, substituído pela moderna Avenida Central, inspirada no modelo aplicado em Paris pelo Barão de Hausmann.
1917-1922 – Crise e esgotamento da "República Velha", governada por uma elite agrária, quando a indústria sinalizava o novo dinamismo da economia e da sociedade. Neste período foram deflagradas as primeiras greves operárias, de ideário anarquista, duramente reprimidas pelo governo federal, que tratava a questão social como "Caso de Polícia".
1922 – Consolidação do Tenentismo, movimento que refletia a insatisfação dos militares e o desejo de participação das camadas médias.
1922 - Realizada Semana de Arte Moderna, em fevereiro, onde escritores e artistas brasileiros propõem a destruição da cultura europeizante e passadista.
1930 - A Revolução de 30 instaurou no Brasil um novo modelo de desenvolvimento industrial e urbano. A adoção desse modelo foi estimulada pelos efeitos, no Brasil, do crash de 1929, que derrubou os preços do café e de outros produtos brasileiros para exportação.
1930-1945 - Era Vargas" período do governo autoritário e centralizado do Presidente Getúlio Vargas, caracterizado pelo populismo, nacionalismo, trabalhismo e forte incentivo à industrialização.
11/11/1937 – O "Estado Novo", institucionalizou, de fato, o regime ditatorial, vigente desde 1930. A Constituição de 1937, inspirada no fascismo italiano, a "polaca", foi elaborada para ser uma Carta "livre das peias do democracia liberal" nas palavras do responsável por sua elaboração, o Ministro da Justiça Francisco Campos.
1942 - O torpedeamento de cinco navios mercantes brasileiros e as fortes pressões populares, obrigaram o governo brasileiro a se aliar aos Estados Unidos; foram organizadas as Forças Expedicionárias Brasileiras (FEB), que enviaram soldados para combater ao lado dos aliados.
1945 - Com a onda democratizante do pós-guerra, Vargas organizou os partidos, por decreto e sob forte controle; os dois maiores partidos, o Partido Social Democrata (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), articularam uma aliança nacional que durou quinze anos.
1945 – Nas primeiras eleições após a guerra foi eleito presidente Eurico Gaspar Dutra pelo PDS.
1946 – Após a instalação de uma Assembléia Nacional Constituinte, que elaborou uma nova Constituição que restabeleceu os direitos individuais, aboliu a pena de morte, devolveu a autonomia de estados e municípios com independência dos três poderes – Legislativo, Judiciário e Executivo. Estabeleceu as eleições diretas para Presidente, com mandato de cinco anos.
1947 – Sob fortes pressões da Guerra Fria o Brasil decretou a ilegalidade do Partido Comunista Brasileiro (PCB), cassou parlamentares desse partido, fechou a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), interveio em centenas de sindicatos e rompeu relações diplomáticas com a União Soviética.
1950 – Getúlio Vargas, eleito Presidente pelo PTB, deu continuidade a uma política nacionalista, populista e pró- industrialização:
a) enviou ao Congresso o projeto para a criação da Petrobras e ; b) flexibilizou as relações sindicais permitindo a Greve dos 300 Mil; c) criou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e limitou em 10% a remessa de lucros para o exterior. .
1938-1950 - Urbanização das grandes capitais do sudeste brasileiro, decorrente da industrialização e das migrações rurais urbanas.
1954 - A política de Vargas provocou a reação da oposição conservadora, liderada pela União Democrática Nacional (UDN). Com as palavras "Saio da vida para entrar na história" o Presidente Vargas se suicidou e tomou posse o Vice João Café Filho.
1955 - Juscelino Kubitschek (JK), vitorioso nas eleições para presidente, pelo PSD, criou o Plano de Metas e consolidou o Modelo Desenvolvimentista.
1956 - JK envia ao Congresso Nacional o projeto para construção da nova capital brasileira, Brasília.
01/04/1964 - Os militares tomaram o poder e, através de um ato institucional, iniciaram uma perseguição a todos que fossem considerados como ameaça ao regime.
1967 – Elaborada a sexta Constituição no Brasil, que institucionaliza o regime militar. O general Artur da Costa e Silva elimina a Frente Ampla, movimento político liderado pelos ex-presidentes João Goulart e JK e pelo ex governador da Guanabara, Carlos Lacerda.
1968 – A morte do estudante Edson Luís, em protesto estudantil, mobilizou estudantes e populares que, com o apoio da Igreja Católica, realizaram a Passeata dos Cem Mil. Ao mesmo tempo ocorrem as greves de Contagem e Osasco e surgem focos de luta armada. O regime endureceu, fechando o Congresso Nacional e decretando o Ato Institucional no 5, que institucionaliza a repressão.
1969-1974 – Governo do general Garrastazu Medici, considerado o período mais brutal da ditadura militar brasileira, também conhecido como anos de chumbo. A área econômica é caracterizada por projetos faraônicos, como a construção da Transamazônica, estrada inacabada, até os dias de hoje, que invadiu terras indígenas e produziu degradação do meio ambiente.
1975 – A sociedade civil começa a se movimentar; os intelectuais e acadêmicos fizeram duras críticas ao regime no SBPC ( Congresso Brasileiro para o Progresso das Ciências); os movimentos populares pediram melhores condições de vida nas cidades;
1974-1979 – O general Ernesto Geisel assume a Presidência e encarrega o General Golberi dio Couto e Silva para desenhar um processo de abertura lenta, gradual e segura.
Década de 1980 – Considerada a década perdida no âmbito econômico, foi a década achada no sentido político: a) nas eleições para governadores, em 1982, os candidatos da oposição, do MDB, saíram vitoriosos nas principais metrópoles brasileiras; b) a sociedade brasileira se movimentou, ocupando todas as capitais brasileiras, exigindo eleições diretas para Presidente, no movimento conhecido como " Diretas Já".
1985 – Se encerrou a primeira fase da Transição Democrática brasileira, com a saída dos militares do governo, depois de 21 anos, e a eleição (indireta) de Tancredo Neves, que morre antes de tomar posse, assumindo o Vice Presidente José Sarney.
1985- 1989 – A Nova Republica marcou, no plano político, a consolidação da abertura democrática, no processo de transição mais longo da América Latina. No plano social significou a diminuição da repressão, ao permitir a expressão de demandas há tanto tempo reprimidas. No plano econômico o período é caracterizado por uma inflação galopante e pelo "Plano Cruzado, a primeira tentativa (fracassada) de estabilizar a moeda.
1987-1988 – Abertura da Assembléia Nacional Constituinte e promulgação da Constituição de 1988.
1990 - Primeiras eleições diretas para Presidente, onde se enfrentam no segundo turno, Fernando Collor de Mello e Luíz Inácio da Silva (o Lula), do Partido dos Trabalhadores (PT).
1990-1992 - O candidato vitorioso, Fernando Collor iniciou seu governo com o confisco das contas correntes e da poupança de toda a sociedade brasileira e apresenta um ambicioso programa de estabilização da economia, o "Plano Collor". Com o fracasso do Plano volta a inflação galopante e se agrava a recessão, presente desde a década anterior.
1992 – Acusado, por seu próprio irmão, de envolvimento em esquema de corrupção, o Presidente foi investigado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Ao mesmo tempo os "caras pintadas" saem às ruas exigindo o impeachment de Collor, que é afastado pelo Congresso, assumindo o Vice Itamar Franco.
1994 - O novo presidente Itamar Franco, nomeou o senador Fernando Henrique Cardoso para Ministro da Fazenda; foi criado o Plano Real que visava a estabilização da moeda. Nas eleições desse ano se enfrentam, no segundo turno, Luíz Inácio da Silva do PT e Fernando Henrique Cardoso (FHC), do PSDB, que sai vitorioso.
1995- 1998 – Para concretizar a estabilidade econômica a sustar a crise fiscal do Estado, causada pelas dívida externa e interna, foram desencadeadas as reformas constitucionais. Ao mesmo tempo, foi derrubado o monopólio em vários setores, como o petróleo, a telecomunicação, gás canalizado e a navegação de cabotagem.
1998 – Fernando Henrique Cardoso é reeleito para mais um mandato de 4 anos.
2002 – Elege-se o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, em sua quarta disputa à Presidência da República.
2010 – Elege-se a primeira mulher presidente do Brasil Dilma Rousseff