quinta-feira, 6 de março de 2014

Lunário Perpetuo:
O Lunário perpétuo do sertanejo falava sobre um amplo painel de interesses do cotidiano, como previsões do tempo, advertências aos lavradores em suas sementeiras, ou conselhos de veterinária. (fonte: http://www.opovo.com.br/app/colunas/anamiranda/2012/05/19/noticiasanamiranda,2841675/o-lunario-perpetuo.shtml)




sábado, 20 de julho de 2013

Breve voltaremos com novidades, estou pesquisando sobre alguns sítios arqueológicos de Portugual.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013



Cortiços insalubres eram ambientes de proliferação de doenças no Rio de Janeiro
Cortiços insalubres eram ambientes de proliferação de doenças no Rio de Janeiro
Hoje o Rio de Janeiro é famoso pela bela alcunha de “Cidade Maravilhosa”, mas seu passado esconde apelidos muito menos lisonjeiros. "Porto sujo" e "cidade da morte" eram os nomes que os estrangeiros usavam para se referir à capital fluminense antes da Reforma Pereira Passos. Muitos navios passaram a evitar a Baía de Guanabara por medo. Em um episódio dramático, em 1895, 333 marinheiros do navio italiano Lombardia, que tinha 340 tripulantes, contraíram febre amarela, e 234 morreram.
As condições insalubres do Centro causavam milhares de mortes anualmente. Até a peste negra assustava no final do século XIX e começo do XX. A historiadora Eneida Queiroz, pesquisadora do período, conta que, além da peste, febre amarela, varíola, sarampo, disenteria, difteria e tuberculose eram também doenças comuns naquela época.
O governo tinha os motivos perfeitos para promover as reformas. A população da cidade crescia muito (95,8% de 1872 a 1890 e 56,3% de 1890 a 1906) devido à onda de imigração europeia e à migração de escravos recém-libertos das fazendas. A ocupação urbana acontecia de maneira desordenada, criando condições ideais para a propagação de doenças. Com mais pessoas disputando o Centro, fez-se a especulação imobiliária. Esse foi o cenário das mudanças de Pereira Passos.
Começou então o famoso “bota abaixo”, com a demolição das casas e expulsão dos pobres para o subúrbio. “O problema é que essa população morava perto do trabalho. Se ela sai do Centro, fica longe. Como só a parte plana era valorizada, muita gente subiu os morros, porque assim continuava no Centro”, explica Queiroz. Foi o boom inicial das favelas do Rio.
Não se pode negar, porém, que a reforma Pereira Passos e o trabalho de Oswaldo Cruz foram eficientes na eliminação das doenças. No auge da epidemia de febre amarela, em 1894, 4.852 pessoas perderam a vida. Dez anos depois, ainda no meio do mandato do prefeito, foram 48 mortes. O número chegou a apenas quatro registros em 1908, conforme dados publicados pelo próprio Oswaldo Cruz no jornal The Times, em 1909.
“Era um discurso de sanitarismo. E a prefeitura foi incisiva. O governo caía em cima da população considerada indesejada. As doenças acabaram sim, mas não foi só pela reforma. A vacinação também ajudou bastante”, conta Queiroz. Ao menos, o Rio de Janeiro, que naquele tempo já era a imagem do Brasil no mundo, mudou sua fama. De “cidade da morte” para “Cidade Maravilhosa” já foi um grande passo.

Fonte: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/reportagem/passado-que-condena

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Ainda o silêncio


Quase 50 anos após o golpe, o tema continua sendo encarado com ressalvas em sala de aula

Mateus Henrique de Faria Pereira


O golpe de 1964 e a ditadura militar (1964-1985) ainda aparecem pouco em sala de aula. A atuação recente da Comissão da Verdade é uma boa oportunidade para que esse passado que ainda não passou seja incorporado com mais intensidade ao ensino de História. A atualidade do tema se impõe, mas há também uma necessidade política. Alguns estudos sugerem que, em comparação com jovens argentinos e uruguaios, os brasileiros são os que menos têm interesse sobre o passado militar e os que têm menores rejeições a “opções militaristas”. Eles também são os mais despolitizados e os que menos defendem valores democráticos. Os dados servem de alerta.
De 1964 até os dias de hoje, a historiografia e o ensino mudaram em vários aspectos, assim como os olhares sobre o golpe. As várias explicações nos livros didáticos – às vezes de um mesmo autor em obras diferentes – mostram que, na escrita histórica do tempo presente, muitas vezes há certa autonomia dos autores em relação à produção historiográfica. Por isso, uma forma interessante de trabalhar com os livros didáticos de História é entendê-los como intérpretes doadores de sentidos ao “acontecimento traumático” golpe de 1964.
Em uma ampla análise de quase 80 livros didáticos produzidos entre 1973 e 2000, nota-se que as abordagens adotadas muitas vezes se concentram nas figuras de Jânio Quadros e João Goulart, individualizando e psicologizando o acontecimento, que é visto como fruto apenas das contingências imediatas. Percebe-se boa dose de determinismo e a predominância do tempo curto sobre todas as outras possibilidades de explicação. O golpe a ser dado era inevitável e seria bem-sucedido. Possibilidades disponíveis, mas perdidas, são ignoradas, como se outras alternativas fossem impossíveis dentro das limitações da conjuntura histórica do pré-golpe.
A presença de civis e o papel desempenhado pelos militares na tomada do poder não costumam ser problematizados.
Na maioria dos livros analisados, o ex-presidente Jânio Quadros é constantemente retratado como um homem carismático, mas imprevisível. A renúncia de Jânio, em 1961, foi apontada como uma das causas centrais do golpe militar em boa parte dos livros dos anos 1970 e 1980, mas ela praticamente desaparece nos livros mais recentes. Essa mudança se dá, provavelmente, pelas referências historiográficas que servem de apoio aos autores dos livros. Naquelas décadas, havia a influência do trabalho de Thomas Skidmore (Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco, de 1969), que enfatiza a crise de 1961, ao passo que nos livros produzidos após a década de 1980 houve a influência da reflexão de René Dreifuss (1964. Aconquista do Estado, de 1981), que minimiza essa crise. É interessante notar que o trabalho de Argelina Figueiredo (Democracia ou Reformas?, de 1993), que revaloriza a crise de 1961, é mencionado em apenas um dos livros analisados.
Alguns deles destacam que as “agitações políticas” durante o governo de Goulart teriam desencadeado o golpe de 1964, como a Revolta dos Marinheiros, em 25 de março do mesmo ano. Já segundo outras obras, a “incapacidade do governo de João Goulart” foi uma das principais causas do golpe militar e civil. A referida incapacidade diz respeito às escolhas feitas por ele e à sua suposta covardia, demonstrada na sua fuga do Brasil no momento em que os militares tomavam o poder. Na maioria dos livros didáticos das décadas de 1970 e 1980, os golpistas não seriam apontados como causa fundamental do golpe. Neles, as origens do golpe estão ligadas, em geral, a crises econômicas e à inabilidade de João Goulart no governo.
Nos livros das décadas seguintes, essas duas origens não mais aparecem. Porém, surgem quatro causas novas: choques entre grupos de esquerda e grupos de direita, fatos que ocorreram em março de 1964, política desenvolvimentista da década de 1950 e que o golpe de 64 teria sido um adiamento do golpe planejado em 1961.
Em geral, a inevitabilidade do golpe está presente.  E isso tanto nos livros que enfatizam a ideia de que 1964 foi fruto de uma conspiração como naqueles em que o golpe é visto como uma ação preventiva da direita contra uma futura ação da esquerda revolucionária. Um aspecto factual, por exemplo, merece ser problematizado em sala de aula. Trata-se da vacância da Presidência. Muitos livros atribuem a suposta fuga de João Goulart para o Uruguai como a razão da decretação da vacância pelo presidente do Senado, Auro de Moura Andrade. Essa “versão” é desmentida pela realidade e legitima o golpe. Na verdade, a vacância anunciada em 1º de abril de 1964 foi inconstitucional, na medida em que João Goulart permaneceu no país até o dia 4 de abril.
É importante perceber que os livros didáticos não são uma mera transposição de um saber acadêmico para um saber escolar. Os autores dos livros didáticos  desempenham a função de conservação e recriação da memória ao escreverem e reescreverem continuamente a história de acontecimentos como a ditadura militar. Eles se tornaram os guardiões e construtores do saber escolar e da memória histórica. Seria necessário pensar a História para além da fascinação pela origem. Afinal, a contradição que os historiadores das origens pretendem superar é, em certa medida, insuperável, pois, após uma longa busca das causas “profundas” e “imediatas”, eles retornam sempre ao caráter contingente do começo de um evento. Assim, além da ocorrência do golpe, outra questão de fundo a ser pensada é a seguinte: por que razões o golpe de 1964 foi duradouro e bem-sucedido do ponto de vista daqueles que foram vitoriosos?
Uma boa compreensão do contexto tende a ser mais interessante do que a busca das “causas”. A hierarquização de “causas” tem uma eficácia didática, mas não necessariamente explicativa. Assim, é preciso criar situações em que os alunos possam relativizar a importância de uma causa de curta, média e longa duração em detrimento de outras. Algumas atividades podem ser estimulantes, como pedir que cada grupo eleja e defenda uma “causa” como determinante, ou confrontar o texto do livro didático com a Wikipédia. O que pode levar, inclusive, a uma tentativa de reformulação do texto da enciclopédia digital.
Para esse tipo de atividade, um importante auxílio aos professores pode ser obtido em sites e blogs sobre o tema. O blogbrasilrecente.com, por exemplo,traz respostas complexas para questões como: por que Goulart não resistiu? Goulart poderia tornar o Brasil socialista?Ao refletir sobre essas e outras questões, é preciso fazer a difícil articulação entre o passado e o presente. Assim, pode ser interessante questionar o que permanece da ditadura na sociedade brasileira. Construir comparações ou analogias, por meio da análise de diferenças e semelhanças entre, por exemplo, questões relativas à tortura e à violência de ontem e de hoje pode ser um importante instrumento de politização e desenvolvimento do pensamento histórico. Trata-se de refletir continuamente sobre o que se passou antes e depois que a experiência democrática vivida pelo Brasil desde 1945 foi lamentavelmente interrompida no ano de 1964. O livro didático é, assim, apenas mais um instrumento desse processo.
Um uso bom e criativo do livro didático pressupõe que o professor trabalhe com um conceito de tempo mais heterogêneo e plural, e continuamente se interrogue sobre a elaboração do livro como um todo. Em outras palavras, é importante questionar o que fabrica o autor de livros didáticos quando escreve a História. Esse tipo de postura crítica e ativa contribui para manter presente o acontecimento “golpe de 1964”, a fim de guardá-lo como algo a ser pensado, impedindo sua dispersão no tempo e no esquecimento.

Mateus Henrique de Faria Pereiraé professor da Universidade Federal de Minas Gerais e autor de A Máquina da Memória/Almanaque Abril: o tempo presente entre a história e o jornalismo (Edusc, 2009).

Saiba Mais - Bibliografia
CERRI, Luís Fernando. “O estudo empírico da consciência histórica entre jovens do Brasil, Argentina e Uruguai”. In: FONSECA, Selva Guimarães; GATTI JR., Décio. (orgs.). Perspectivas do Ensino de História: ensino, cidadania e consciência histórica, vol. 1.  Uberlândia: Editora da Universidade Federal de Uberlândia, 2011.
FICO, Carlos. “Versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar”. In: Revista Brasileira de História,2004.  
TELES, Edson; SAFATLE, Vladimir. O que resta da ditadura: a exceção brasileira. São Paulo: Boitempo, 2010.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Quentes, sujas e doentias A vida e a saúde nas cidades coloniais estavam muito distantes do paraíso tropical imaginado pelos europeus


Cristina Brandt Friedrich Martin Gurgel
Acarta de Pero Vaz de Caminhaafirma, sobre a terra descoberta, que se “querendo aproveitá-la, tudo dará nela, por causa das águas que tem”. Mas, menos de um século depois,os comentários já não eram tão generosos. Nofinal do século XVI, as descrições sobre a Colônia falavam de uma terra “quente como um vulcão e doentia”, considerada imprópria para uma vida saudável e tranquila. A paradisíaca visão inicial dos europeus sobre os trópicos,  explicitada por Sérgio Buarque de Holanda em Visão do Paraíso,logo sucumbiu à dura realidade do diaadia, e os colonizadores não demoraram a perceber isso.
Havia o calor e a distância dos grandes centros comerciais. Issodificultava, por exemplo,a aquisição de bens de consumo, já que o transporte marítimo era irregular e descontínuo. Produtos simples, que facilitassem a vida ou proporcionassem pequenos prazeres, como roupas, sapatos, farinha de trigo e vinhos,estavam praticamente fora de alcance. Além disso, mal as aglomerações urbanas começaram a surgir,tiveram queenfrentar os primeiros surtos de doenças contagiosas.
Diante do desconforto, da difícil adaptação ao clima e do aparecimento de epidemias que arrasavam a população, a salubridade das paragens brasileiras começou a ser duramente questionada. Os viajantes e jesuítas que propagavam a ideia dos “bons ares”da nova terra e recomendavam aos doentes de além-mar que atravessassem o Atlântico para aqui se tratarem foram desacreditados. Com o passar dos anos, poucos concordavam com as recomendações do padre Anchieta, que afirmava ter sido curado de uma séria enfermidade pelos bons ares e pelo clima ameno da nova terra. O dia a dia mostrava-se diferente. Não sabiam os colonizadores e seus descendentes que eram eles próprios os responsáveis por muitas das doenças que os assolavam, como tuberculose, sarampo e varíola.
A pequena população urbana brasileira vivia em vilas e cidades acanhadas. As moradias serviam apenas como abrigo contra as intempéries, em local defensável contra uma possível invasão inimiga – índios, piratas, franceses, ingleses ou holandeses. No início, os espaços urbanos localizavam-se perto da costa e possivelmente não abrigavam mais de 40 colonos – o número de famílias era contabilizado pelos “fogos” que ardiam na cozinha de suas casas.
Braços escravos levantaram as casas, igrejas, edifícios públicos e muros das povoações coloniais. Diante de uma natureza desconhecida e hostil, os nomes de santos dos nascentes núcleos urbanos serviam para afastar seus demônios e cristianizar a paisagem. São Paulo era descrita no século XVII como uma vila de duas centenas de fogos, formada por prédios acanhados e alcovas restritas, com pouco asseio nas ruas e quintais e nenhum sistema de esgoto ou água encanada.
Em termos de salubridade, São Paulo, naquele século, não era diferente de outros núcleos urbanos brasileiros e sequer de Lisboa, onde por muito tempo persistiu um modo peculiar de livrar-se das fezes e da urina: lançavam-nas pelas portas e janelas.Para evitar que transeuntes fossem atingidos por tão desagradável carga, foi elaborado um decreto que obrigava o cidadão a gritar “água vai!” ao atirar os excrementos às ruas. No Brasil, os dejetos humanos eram carregados e jogados diretamente nas águas do mar ou nos rios por cativos – os “tigres”, escravos com pele listrada pela acidez dos detritos que lhes escorriam pelas costas através da palha dos cestos. Até hoje, em São Luís do Maranhão, o povo perpetuou o nome de “Beco da Bosta”, um antigo trajeto usado pelos escravos para jogar as fezes e a urina de seus senhores no mar.
Uma maneira mais engenhosa de higienização urbana foi posta em prática em Paraty, no atual estado do Rio de Janeiro. Elevada à categoria de vila em 1667, suas ruas, mais baixas em relação às casas, foram traçadas obedecendo às normas coloniais. Todas as vias são côncavas, formando uma canaleta central que se direciona para o mar, o que permite a invasão das águas nas marés altas. Com o baixar das águas, todos os detritos eram levados para o mar. Mas, em geral, os núcleos urbanos aguardavam as chuvas para sua limpeza, e diante da imundície que se acumulava, as doenças infectocontagiosas tinham um lugar ideal para sua disseminação.
A expectativa de vida destas populações era baixa, condenada tanto pelas condições adversas do meio quanto por uma medicina ausente ou ineficaz. Johan Nieuhof (1618-1672), um funcionário da Companhia das Índias Ocidentais holandesa que viveu no Nordeste entre 1640 e 1649, ali testemunhou índices de sobrevida alarmantes entre filhos de estrangeiros: apenas uma de três crianças nascidas vivas conseguia sobreviver.  
Cidades como Salvador, de construção planejada, tinham espaços limitados, murados, o que fazia com que a população, apesar de pequena, vivesse aglomerada. Os poucos cuidados com as edificações limitavam-se àexposição aos ventos e à umidade, que poderiam tornar a saúde mais frágil.Apesar desses cuidados, frequentementeapareciam nos espaços urbanos casos de “icterícias” – leptospirose?  hepatite? malária? –, uma praga que se espalhava nos meses chuvosos, de tal maneira que suas vítimas assumiam um assustador aspecto macilento e cadavérico. Muitos morriam, alguns tão rapidamente que sequer havia tempo para receberem os últimos sacramentos.
Distúrbios gastrointestinaiseram comuns, como as “câmaras de sangue” (disenterias sanguinolentas), doenças oculares como uma “meia-cegueira” (conjuntivites comuns ou específicas)–que acometia principalmente soldados e pobres de origem europeia–e afecções de pele. Sobre a hanseníase, até meados do século XVII há poucas referências nas crônicas e documentos. Uma delas está nasnotícias sobre a primeira área de isolamento de doentes conhecida no Brasil – o Campo de Lázaros, em Salvador (1640) – e sobre o projeto de um hospital próprio no Rio de Janeiro. Em contrapartida, alusões à doença tornam-se cada vez mais frequentes no século seguinte.
Mas o que de fato abalava a população era a ocorrência de uma grande epidemia. Gripe, sarampo, febre amarela e, em especial, a varíola periodicamente assolavam também os espaços rurais. A fragilidade da vida na Colônia tornava-se mais evidente: houve períodos de fome, pela falta de braços na agricultura; desestruturação social, principalmente indígena; falta de assistência médica e hospitalar e, sobretudo, a perda de vidas em um país com um já enorme vazio demográfico. No final do século XVI, o Rio de Janeiro tinha aproximadamente 1.000 moradores e nenhum médico formado.
Os Senados das Câmaras continuamente solicitavam ao poder central o envio de médicos, então denominados físicos. Mas, escassos em Portugal e diante das dificuldades impostas pela vida colonial, poucos se aventuraram no Brasil. Uma solução encontrada foi a contratação e o pagamento de profissionais pelo governo de Lisboa. Os salários não eram tentadores: durante o governo de Tomé de Souza (1549-1553), o físico Jorge Valadares tinha ordenado anual pago pela Coroa de 60 mil réis– um bispo recebia 200mil réis anuais. Para conseguirem se manter, os médicos exerciam mais de uma profissão, e suas atividades, devido à falta de moeda corrente,podiam ser pagas com panos, açúcar, galinhas, milho ou algodão.
Os físicos que vieram para o Brasil nos primeiros séculos da colonização não se destacaram em seus feitos. É raríssimo encontrar alguma obra escrita de valor, como a de Ferreira Rosa, que, como testemunha da primeira epidemia de febre amarela no país, foi imortalizado por seu Tratado Único de Constituição Pestilencial de Pernambuco, publicado em Lisboa em 1694. Na maioria das vezes, a qualidade do trabalho dos físicos era vista com desconfiança porque havia poucos resultados favoráveis da medicina oficial. Um dos exemplos está num pronunciamento do bispo do Grão Pará e Maranhão, frei Caetano Brandão, já no século XVIII: “É melhor tratar-se a gente com um tapuia do sertão, que observa com mais desembaraçado instinto, do que com um médico de Lisboa”.
A população brasileira vivia, de fato, muito longe do paraíso.
Cristina Brandt Friedrich Martin Gurgelé professora de Clínica Médica da Pontifícia Universidade Católica de Campinas e autora de Doenças e Curas. O Brasil dos Primeiros Séculos (Contexto, 2010).

Saiba Mais - Bibliografia
OMEGNA, Nelson. A Cidade Colonial. Brasília: Ebrasa,1971.
ROCHA PITTA, Sebastião. História da América Portuguesa. Bahia: Imprensa Econômica, 1878.
SANTOS FILHO, Lycurgo. História Geral da Medicina Brasileira. São Paulo: Editora de Humanismo, Ciência e Tecnologia Ltda. e Editora da Universidade de São Paulo, 1977.
VON MARTIUS, Karl Friedrich. Natureza, Doenças, Medicina e Remédios dos Índios Brasileiros (1844).  São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1939.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Vargas para todos os gostos Mal ou bem, só falam dele



Por Marieta de Moraes Ferreira http://www.revistadehistoria.com.br/v2/images/nada.gif

O que é que Getulio tem? Como explicar que um líder falecido há mais de meio século continue exercendo forte influência no cenário político do país? Por que, afinal, sua figura é lembrada e relembrada – seja para o elogio, seja para a crítica – sempre que se discutem os grandes temas nacionais?
Em agosto de 2004, quando o suicídio de Getulio Vargas completou 50 anos, o Brasil assistiu a uma onda de celebrações em memória ao ex-presidente. Seminários, exposições, debates, construção de memoriais, artigos em revistas especializadas, cadernos especiais nos jornais, programas de rádio e televisão. O tom era francamente positivo, com as atenções voltadas para o seu segundo governo (1951-1954) – tempos de crescimento econômico e de implantação de políticas industriais que estimularam a ampliação do mercado de trabalho, o que possibilitou maior inclusão social. Tudo isso sob a vigência de normas democráticas. Nos dias de hoje, é compreensível que esse cenário provoque nostalgia naqueles que voltam o olhar para a década de 1950. Afinal, integrar o pleno funcionamento da democracia com a retomada do crescimento econômico e a diminuição das desigualdades sociais ainda é o grande desafio brasileiro.
Nem sempre a memória de Vargas recebeu tratamento tão nobre. Em primeiro lugar, porque se trata de um personagem bastante ambíguo – se por um lado contribuiu com inegáveis avanços para o desenvolvimento do país, por outro liderou um período autoritário e de repressão política em seu primeiro governo (1930-1945). Além disso, no último meio século o Brasil atravessou grandes mudanças políticas e institucionais. À experiência democrática iniciada em 1946 sucederam-se, a partir de 1964, vinte anos de ditadura militar, até que em 1985 se iniciasse novo processo de construção da democracia. Para cada um desses momentos veio à tona um Vargas diferente.
Agosto de 1964. Os dez anos do suicídio coincidem com o início de um novo regime: o golpe militar havia ocorrido em 31 de março daquele ano. Não poderia haver momento pior para o cultivo da memória de Vargas. Seu principal herdeiro, o presidente João Goulart, havia sido deposto, e um grande número de partidários do PTB e do PSD, partidos que lhe deram sustentação no segundo governo, foram afastados da vida pública. Os militares que tomaram o poder apresentavam-se como aqueles que iriam pôr fim à Era Vargas.
“A queda do império getuliano” foi o título de um conjunto de textos publicado no Jornal do Brasil no domingo, 23 de agosto de 1964. Três grandes reportagens procuravam enfocar sua trajetória sob diferentes ângulos. A primeira tratava de aspectos pessoais, da infância até a formação na Faculdade de Direito e o início da vida profissional como promotor. Ainda que de caráter pouco opinativo, o texto deixava entrever simpatia pelo personagem. A seguir apresentava-se uma cronologia comentada dos principais fatos políticos que contaram com a participação de Vargas, como a Revolução de 1930, o golpe de 1937, a deposição em 1945 e a volta ao poder pelas urnas em 1950. Por fim, a matéria intitulada “Memórias de agosto” fazia uma retrospectiva dos acontecimentos que antecederam o suicídio. Em destaque, o depoimento de Café Filho – vice-presidente de Vargas e seu sucessor, cujo breve governo se aproximou da oposicionista UDN –, que apenas relembrava os episódios, sem fazer qualquer julgamento: “Um ex-presidente não deve julgar um ex-presidente”. Talvez os ex-presidentes Kubitschek e Goulart não pensassem da mesma forma, mas eles estavam no exílio e não foram ouvidos.
Curioso é que, enquanto o golpe de 1964 foi visto por alguns como a “segunda morte de Vargas”, não demorou para que o governo adotasse um projeto autoritário que incluía exatamente as idéias de um Estado centralizado e de um sindicalismo corporativista – como se viu na tradição varguista. Por isso, quando chegou 1974, vigésimo aniversário de sua morte, a memória de Vargas ganhou outro tratamento. Na Câmara dos Deputados, os líderes dos novos partidos políticos (a Arena, de apoio ao governo, e o MDB, de oposição consentida) proferiram discursos em sua homenagem. Naquele teatro oficial, o tom era de ênfase no desenvolvimento econômico. Houve também algumas tímidas manifestações nas ruas do país. No Rio de Janeiro, elas se concentraram na praça da Cinelândia, em frente ao busto do presidente. Flores foram deixadas ao pé do monumento e duas mil cópias da carta-testamento foram distribuídas, muitas trazendo também os nomes de candidatos ao Congresso Nacional. Em Porto Alegre, o MDB homenageou Vargas com uma missa e uma concentração política diante do monumento à carta-testamento.
Já a imprensa não produziu apenas conteúdos positivos. Um artigo do jornalista Carlos Castello Branco, publicado em caderno especial do mesmo Jornal do Brasil, indica sua intenção crítica já pelo título: “A ditadura”. O autor rememora a censura praticada no Estado Novo, a ação repressora do governo diante das manifestações políticas e as prisões efetuadas. A figura que emerge é a do Vargas ditador, odiado por aqueles que defendiam a liberdade de expressão e a democracia. Para Castello Branco, a ditadura de Vargas propiciava a “corrupção sob todas as formas e se tornava ineficiente como fator de mobilização para o trabalho. (...) A ditadura é por definição centralista, mas no Brasil daqueles tempos, sem comunicações, havia, além de uma ditadura estadual, ditaduras culturais”.    Qualquer semelhança com o contexto da época certamente não se deve a coincidência. Carlos Castello Branco se utiliza da condenação ao autoritarismo do Estado Novo para realçar as arbitrariedades do regime em vigor.
A partir do final de 1978, quando foi revogado o Ato Institucional n° 5, o mais drástico da legislação de exceção editada pelo regime militar, os ventos da abertura começaram a soprar com mais força. No ano seguinte, foi decretada a anistia política e a reforma partidária. Muitos exilados voltaram ao país, e em 1982 houve eleições diretas para governador. Em 1983, um outro tipo de comemoração foi preparado em torno de Vargas: celebrou-se o centenário de seu nascimento.
Os novos ares democráticos possibilitaram a realização de diversos debates sobre a Era Vargas. Pela primeira vez sua memória alimentava análises sobre a história recente do país, a partir de comparações entre diferentes períodos. A reestruturação dos partidos políticos desencadeada em 1979, por exemplo, foi discutida à luz do cenário pós-1945, quando o país também viveu um retorno à democracia. A diferença era que, no pós-Estado Novo, o getulismo e o antigetulismo eram determinantes no jogo político, enquanto no início dos anos 1980 não havia nenhum partido ou núcleo político declaradamente antigetulista. Ao contrário, o getulismo e sobretudo o trabalhismo passaram a ser utilizados como trunfo eleitoral por vários partidos. A exploração eleitoral voltava-se para uma parte específica da memória de Vargas: seu lado nacionalista e patriótico, tal qual exposto na carta-testamento.
De modo geral, o centenário de 1983 redimiu a figura de Getulio Vargas associando-a ao seu segundo governo, democrático e nacionalista. Ainda que alguns artigos mencionassem a face autoritária do líder, o foco não se fixava nessa questão. No ano seguinte, a comemoração dos 30 anos da morte de Vargas assumiu grande relevância no cenário político.
Assim que foi rejeitada a emenda das “Diretas Já”, a oposição lançou a candidatura de Tancredo Neves para a eleição indireta à Presidência. Político conciliador, Tancredo era governador de Minas Gerais. E ex-ministro de Vargas. Em agosto de 1984, o candidato da Aliança Democrática – formada pelo PMDB e pelos dissidentes do governo – juntou-se a Leonel Brizola, do Partido Democrático Trabalhista (PDT, herdeiro do antigo PTB), e a outros líderes em uma caravana rumo a São Borja (RS), cidade natal de Getulio, para prestar-lhe uma homenagem. A memória de Vargas ajudou a costurar a aliança entre PDT e PMDB. Unidos para reverenciar o passado, os dois partidos estavam de olho no futuro. “Getulio é realmente aquele divisor de águas, aquele que havia dado mais que a sua vida, havia dado todo o seu espírito a serviço da emancipação política, econômica e social do nosso povo. (...) Feliz a pátria que pode possuir homens públicos da sua estatura; feliz a nação que pode se honrar de ter tido um filho deste vulto e deste porte”, afirmou Tancredo Neves na ocasião. Brizola aproveitou para sugerir que, dali em diante, 24 de agosto fosse considerado o “Dia da Carta-testamento”. “Mais que a morte do presidente Getulio Vargas, a referida data assinala o lançamento daquele grande manifesto, cujo impacto e a posterior influência sobre os destinos do povo brasileiro são de uma profundidade que ainda não estamos em condição de avaliar. Divulgar o pensamento conclusivo do maior estadista deste século é uma questão cívica que interessa ao conjunto da Nação, com vistas às novas gerações”, discursou o gaúcho, governador do Rio.
A redemocratização do país não transcorreu sem percalços. Eleito presidente em janeiro de 1985, Tancredo morreu antes de tomar posse. No governo de seu sucessor, o vice José Sarney, todas as atenções se voltaram para o combate à inflação, que progredia em ritmo alarmante. A memória de Vargas também não navegaria em águas calmas.
“A Era Vargas acabou”. O mote, que reverbera o discurso dos militares do golpe de 1964, ressurgiu no início dos anos 1990. Era o momento de questionar o modelo de desenvolvimento econômico inaugurado por ele. Em 1994, analistas defendiam que a tendência mundial de abertura das economias, de privatização das empresas estatais, redução da ação do Estado, controle das contas públicas e ajuste fiscal resultaria, para o Brasil, na “terceira morte de Vargas”.
Este foi o título de um artigo assinado pelo cientista político Bolívar Lamounier naquele ano. Segundo o autor, com novas instituições, uma opinião pública livre e novos meios de comunicação, o país vivia um período de construção democrática, no qual desaparecia “a preocupação com a tutela das Forças Armadas sobre o sistema político”. Por isso seria possível “afirmar que o getulismo e o antigetulismo virulentos feneceram”. Outras críticas foram expressas na ocasião, como fez um editorial do Jornal do Brasil (25/8/1994) que apontava o corporativismo como herança negativa do varguismo enraizada na sociedade brasileira.
A oposição, por sua vez, tentava usar o mito a seu favor. Para a economista Maria da Conceição Tavares, o então candidato à Presidência pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva, era o principal herdeiro do trabalhismo de Vargas, enquanto o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), de Fernando Henrique Cardoso, poderia ser comparado à antiga UDN. Depois de eleito FHC, muitas vozes da oposição continuaram a apregoar os valores positivos de um certo legado varguista. Na luta contra as privatizações e no debate sobre a revisão da legislação trabalhista, a figura de Getulio era acionada para contestar os novos rumos tomados pelo país.
O embate ganhou novas feições em 2004. Desde o ano anterior, o país vivia sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-líder operário que iniciou sua carreira política no final do regime militar, fundando o PT, e que jamais se declarou, ele próprio, herdeiro de alguém.
Contrariando certas expectativas de que o velho líder não mais despertaria grande interesse, naquele ano Vargas ressurgiu com grande vigor. Os principais jornais do país prepararam alentados cadernos especiais. As revistas de História dirigidas ao grande público saíram com fotos de Vargas estampadas na capa. Políticos e intelectuais dedicaram-se a discutir o assunto.
Para alguns analistas, a vitória de Lula na eleição de 2002 poderia representar a retomada de alguns ideais do nacional-estatismo. Cristóvam Buarque, ministro da Educação de Lula até janeiro de 2004, foi um dos que colocaram 1954 em pauta: “Apesar da revolução que significou a eleição de Lula e o governo do PT, 2004 ainda não deixou claro o novo rumo que o país precisa e espera desde 1954”. O ex-ministro não chegava a defender as opções de Vargas, mas destacava a necessidade de conhecê-las para criar um outro projeto nacional: “Ainda é tempo de mudar, de reorientar o Brasil. Lembrar o passado em geral é o melhor passo para começar a construir o futuro. O futuro da continuação do mesmo, dos últimos 50 anos, ou da construção do novo para o século XXI”, escreveu.
A idéia de “construção do novo” não era compartilhada por todos os setores do governo. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por exemplo, criou o “Projeto Getulio Vargas”, que realizou seminários e produziu documentário, livro, exposição, show e memorial com a estátua de Vargas. O projeto manifestava a intenção de “contribuir para o fortalecimento da história [de Vargas], a valorização de seu legado e, sobretudo, o resgate da memória de importantes conquistas para o cidadão brasileiro”. Então presidente do banco, o economista Carlos Lessa defendia o nacionalismo e as políticas econômicas de Vargas, em oposição ao projeto neoliberal do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Nas palavras de Lessa, “um presidente de alma seca achou que devíamos enterrar a Era Vargas. O que este presidente deixou de legado?” Reforçando a associação do novo presidente com o antigo líder trabalhista, afirmava que “a agenda recuperada de Vargas nos aponta uma continuidade entre o nacional-desenvolvimentismo dele e de sua época e o desenvolvimentismo nacional democrático de Lula”.
Poucas vozes eram exclusivamente de críticas a Vargas. Uma delas foi a do Instituto Liberal, de oposição ao governo Lula. Cândido Prunes, vice-presidente do Instituto, argumentava que o país cometia um erro ao esquecer “a truculência política da era Vargas”. E ia além: “Neste ano em que se registram os 50 anos do suicídio de Getulio Vargas, deveria se iniciar uma campanha pelo banimento do seu nome de todas as ruas, avenidas, praças e locais públicos. Foi ele um caudilho sanguinário que deveria merecer o opróbrio, como qualquer ditador. Ou então, por uma questão de justiça, comecemos a homenagear os militares ‘linha dura’ de 1964”.
Mas, em geral, as opiniões críticas não expressavam um antigetulismo radical. Mesmo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou, em palestra no jornal O Globo, que suas declarações ao tomar posse em 1994, relativas ao “fim da Era Vargas”, foram mal interpretadas. Afirmou que nunca fora antigetulista, apenas achava que o modelo varguista havia se tornado obsoleto nos novos tempos. E tratou de elogiar o líder: “Getulio não era caudilho. Foi fruto das circunstâncias, mas tinha capacidade tática, malícia, visão”.

De lá para cá, grandes temas da Era Vargas continuam na ordem do dia, como o desenvolvimentismo, o nacionalismo e a intervenção do Estado na economia. Discussões que devem ganhar nova roupagem com a chegada das eleições. Não se sabe ainda como a figura do líder vai reaparecer, mas uma coisa é certa: 54 anos após 54, Getulio continua vivo. E bem na foto.

Marieta de Moraes Ferreira é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC).

Saiba Mais - Bibliografia:

BRANDI, Paulo. Da vida para a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
GOMES, Ângela de Castro; PANDOLFI, Dulce Chaves; ALBERTI, Verena (coord.). A República no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/CPDOC, 2002.
HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.
SILVA, Hélio. Um tiro no coração. Porto Alegre: L&PM, 2004.


Fonte: Revista Brasileira da Biblioteca Nacional

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Cachaceiro é cachaceiro



Quando a cachaça era bebida de negro e subia para a cabeça, quando se entornava muito, dizia-se embriaguez, bebedeira, mona, porre, pifão, puxando-um-fogo e que tais. Estes designativos que menosprezam os apreciadores da cachaça, com a entrada dos brancos para o cordão da "branquinha" tudo se modificou: — uma dose de cachaça é uma "batida"; um porre de cachaça é uma crise etílica passageira; um cálice de cachaça na mesa de um bar chique chama-se abrideira; um coquetel à base de cachaça antes de um jantar chique chama-se aperitivo.                                                    
 Quando um bebedor de cachaça excede-se na bebida das "batidas", sobrevém o pifão, na linguagem popular. Mas, se o bebedor de cachaça é grã-fino o fato anormal não se chama pifão, o nome técnico chama-se intoxicação etílica. Até entre as classes sociais há diferenciação entre os termos dos cachaceiros.